sexta-feira, 11 de maio de 2012

Borrachas - Química e Tecnologia


 Largamente utilizada no mundo todo, a borracha é um material de enorme importância econômica e estratégica. Os transportes, a indústria química, a engenharia e a indústria elétrica e eletrônica são grandes consumidores de borracha. As borrachas podem ser naturais, extraídas sobretudo da seringueira Hevea brasilensis, e sintéticas, obtidas principalmente a partir de derivados de petróleo.
 
A borracha é um polímero, o que significa que é um produto composto por moléculas formadas a partir de uma mesma unidade estrutural repetidas um grande número de vezes e ligadas quimicamente entre si. Existem três classes de polímeros: das borrachas, dos plásticos e das fibras sintéticas. O polímero que forma a borracha natural é o cis-1,4-poliisopreno. Tipos diferentes de borracha são formados por diferentes polímeros.
Em seu processamento industrial, as borrachas recebem vários aditivos, alguns inertes, outros de reforço de estrutura, e alguns que conferem cor, odor e resistência, entre diferentes características. Cada ingrediente desempenha uma função específica com o correspondente impacto nas propriedades, na processabilidade e no preço do produto final. Para obter os resultados que deseja, a indústria da borracha segue uma formulação conhecida como “receita”. O resultado final da mistura terá as características predeterminadas.
Segundo dados divulgados pelo International Rubber Study Group, o consumo anual de borracha natural e sintética em todo o mundo alcançou 25,9 milhões de toneladas em 2011, 6% mais que em 2010. A demanda mundial para 2012 deverá alcançar 27,2 milhões de toneladas, prevê a instituição. A borracha natural é produzida principalmente em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos; a Ásia produz 85% da borracha natural comercializada no mundo, e seus principais países produtores são Tailândia, Indonésia, Malásia, China, Índia e Vietnam. Depois dos asiáticos vêm os países africanos como maiores produtores. O Brasil produz apenas 1% da borracha natural consumida no mundo, com 108 mil toneladas em 2008, de acordo com o International Rubber Study Group. O maior consumo da borracha natural está concentrado em países desenvolvidos ou em processo de industrialização, como China, Estados Unidos, Japão e Índia.
A indústria automobilística é a maior consumidora de borrachas, mas outros setores produtivos também se destacam, como os de calçados, mineração e siderurgia, eletroeletrônicos e eletrodomésticos, de entretenimento (para fabricação de brinquedos, máscaras, balões), saúde (para produção de luvas cirúrgicas, preservativos, tubos cirúrgicos, bicos de mamadeira), indústria petroquímica, construção civil e saneamento.
Borracha natural
A borracha natural (NR) é obtida por coagulação do látex principalmente de árvores do gênero Hevea brasiliensis (seringueira). O polímero da borracha natural é o cis-1,4-poliisopreno. A borracha natural é um elastômero natural, o que significa que ela é um polímero que tem como principal característica a elasticidade. Além do polímero, estão presentes na borracha natural várias outras substâncias químicas, como proteínas, substâncias resinosas e umidade, que lhe conferem alguns aspectos indesejados como, por exemplo, o odor.
  
 A seringueira leva aproximadamente 7 anos até atingir a idade de produção, e pode continuar a fornecer látex durante vários anos. A coleta e o processamento do látex requerem considerável mão de obra. O látex é obtido fazendo-se incisões na árvore e o líquido se acumula em pequenas tigelas que devem ser recolhidas com freqüência para evitar a putrefação e a contaminação. O látex recolhido é levado para unidades de processamento, onde é coado e recebe o preservativo NH3 (amônia). A borracha é separada por um processo conhecido como coagulação, que ocorre quando se adicionam ácidos ou sais ao látex; a borracha se separa do líquido na forma de uma massa branca, pastosa, que é moída e calandrada para remover contaminantes e secar. A borracha comercial é vendida em fardos, sendo suficientemente estável para ser estocada por anos.
Existem diversos tipos de borracha natural, cujas características dependem do método de obtenção. Normalmente, os tipos de borracha natural obtidos via látex apresentam melhorqualidade, mas são mais caros. A borracha natural é mais elástica, chegando a atingir alongamento de 900% em relação ao comprimento inicial. A flexibilidade e a resiliência(capacidade de voltar à forma original) são outras características da borracha natural.
A faixa de temperatura que o produto de borracha natural suporta vai de -20°C a +70°C. A borracha natural perde suas qualidades quando em contato com derivados de petróleo, como solventes, óleos, combustíveis e lubrificantes, ozônio, radiação solar (UV) e quando exposta às intempéries, como variação de temperatura, gases, poeira e umidade. Suas principais aplicações são em pneus e na indústria automobilística, em peças técnicas, como buchas, bicos de mamadeiras e chupetas, solados e indústria calçadista, construção civil, artigos médico-hospitalares, artigos esportivos e adesivos.
Vulcanização
  
Antes da descoberta da vulcanização, em 1839, a borracha natural já era utilizada para a fabricação de muitos produtos, como luvas, calçados e capas impermeáveis. A borracha, no entanto, apresentava vários inconvenientes que inviabilizavam seu uso em larga escala: era difícil de ser moldada, os produtos ficavam moles e pegajosos no calor, rígidos e sem flexibilidade no frio, tinham baixa resistência à luz e aos líquidos, e para piorar, adquiriam odores desagradáveis com o passar do tempo. Com tantos problemas, os produtos de borracha passaram a ser rejeitados pelos consumidores. A descoberta da vulcanização por Charles Goodyear, nos Estados Unidos, revolucionou a indústria desse material. “A borracha crua tratada com enxofre, acima do seu ponto de fusão transforma a borracha de um estado original plástico a um outro elástico, com características dimensionais estáveis e com habilidade de suportar variações na temperatura” escreveu Goodyear, ao relatar sua descoberta, depois de anos de pesquisas. A palavra vulcanização faz referência a Vulcano, deus do fogo na mitologia romana. Submetida a altas temperaturas, a borracha reage com o enxofre para produzir um produto que contém uma rede de ligações cruzadas entre as cadeias poliméricas. O cruzamento entre as moléculas se dá por pontes de dissulfeto, como mostra a figura abaixo.
   CH3
     |
—CH-C=CH-CH—
     |
     S
     |
    S   CH3
     |     |
—CH-C=CH-CH—
  
                                    Pontes de dissulfeto
                                    entre cadeias de poliisopreno
Durante a vulcanização, as moléculas da borracha são ligadas umas às outras e formam uma rede tridimensional de macromoléculas por meio de ligações cruzadas entre elas, o que reduz a mobilidade e o movimento. O artefato de borracha adquire, então, uma forma fixa, não mais moldável, porém, ainda flexível e elástica. O material não amolece em temperaturas elevadas ou congela no frio, e torna-se mais resistente quimicamente. 
O próprio processo de vulcanização passou por uma longa evolução. No início eram necessárias grandes quantidades de enxofre e tempos de cura relativamente longos e os produtos adquiriam uma coloração indesejada. A grande evolução aconteceu com o desenvolvimento de aceleradores, no início do século XX, que aumentaram a velocidade da vulcanização. O nível de enxofre pôde ser reduzido sem prejuízo para as propriedades físicas do vulcanizado, e obteve-se maior resistência ao envelhecimento. Produtos vulcanizados transparentes ou coloridos foram obtidos. Se o processo de vulcanização durava até 5 horas quando foi descoberto, hoje o tempo passou para apenas alguns minutos, dependendo do tipo de acelerador e das características desejadas para o produto final.
Existem processos de vulcanização sem enxofre que usam peróxidos orgânicos, óxidos metálicos e substâncias bifuncionais, como a resina p-quinona-dioxima, a trietilenotetramina, e a hexametilenodiamina.
                                  Vulcanização de pneus em
           fábrica norte-americana
 em 1941/Wikimedia Commons
Borrachas sintéticas
As borrachas sintéticas são materiais elastoméricos que possuem capacidade de retornar à forma original quando submetidos a um esforço ou deformação externa, ou seja, são produtos com grande elasticidade. Foram desenvolvidas nas primeiras décadas do século XX nos Estados Unidos e na Alemanha, como substitutas da borracha natural.
As borrachas sintéticas têm como base os copolímeros (polímeros derivados de mais de uma espécie de monômero) de estireno e butadieno. A primeira borracha sintética foi a SBR – elastômero de estireno-butadieno - que não tinha todas as propriedades da borracha natural, mas custava muito menos. Assim como a borracha natural, a borracha sintética também pode ser submetida à vulcanização. Estados Unidos, China e Japão são os principais produtores e consumidores de borrachas sintéticas no mundo, enquanto Rússia, Alemanha, Brasil, França e Coréia do Sul são importantes consumidores.
 
Fabricação
A fabricação de artefatos de borracha normalmente é feita em quatro etapas: mistura das matérias-primas, moldagem ou conformação da massa, vulcanização e acabamento.
Os compostos de borracha geralmente são formulados a partir da mistura da matéria-prima base (borrachas natural ou sintética) e aditivos químicos, como agentes de vulcanização (geralmente enxofre), aceleradores de reação de vulcanização (catalisadores), plastificantes, cargas minerais, pigmentos e outros produtos auxiliares. A moldagem pode ser realizada por processos de injeção, extrusão ou prensagem. A vulcanização ocorre, normalmente, entre 150°C e 180°C. Com a vulcanização, o material passa do estado plástico para o elástico, e adquire características definidas e estáveis de dureza, resistência mecânica e elasticidade, entre outras.
A presença do profissional da química é fundamental na indústria de borrachas. Ele atua no desenvolvimento da formulação da borracha, no controle de qualidade das matérias-primas e dos produtos, e durante todo o processo industrial.

Vocabulário

Leia mais
ANDRADE, Cristina T. et al. Dicionário de Polímeros. Ed. Interciência, 2001.
ROCHA, Edmundo; LOVISON, Vivia; PIEROZAN, Nilso José. Tecnologia de Transformação de Elastômeros – Fiergs/Senai, Centro Tecnológico de Polímeros, São Leopoldo, 2007.
GRISON, Élyo; BECKER, Emilton; SARTORI, André. Borrachas e seus aditivos - Componentes, influências e segredos. 1ª ed. Porto Alegre: Suliani Letra & Vida, 2010.
SHREVE, R. Norris; BRINK, Joseph A. Jr. – Indústrias de Processos Químicos. Ed. Guanabara, 1980.
MARINHO, Jean Richard D – Macromoléculas e Polímeros. Ed. Manole, 2005
Site da Associação Brasileira da Indústria Química – Abiquim. Acesso em 12/12/2011http://www.abiquim.org.br/borrachas/aplic.asp

Texto
Mari Menda – Jornalista – Depto.Comunicação e Marketing CRQ-IV
Revisão
Paulo Garbelotto – Engenheiro de Materiais – Gerente Comercial, Marketing, Desenvolvimento de Negócios – Rhodia Silica
Prof. Dr. Antonio Carlos Massabni – IQ/UNESP Araraquara
Fotos
Wikimedia Commons
Stock.xchng sxc.hu



Retirado de http://crq4.org.br/default.php?p=texto.php&c=quimicaviva_borrachas Acessado em 11 de maio de 2012

Plásticos


O plástico é um tipo de polímero sintético, similar em muitos aspectos às resinas naturais encontradas em árvores e outras plantas. A palavra polímero tem origem no grego: poli significa muitas e mero significa parte ou unidade. Os plásticos são produzidos a partir de monômeros, a unidade química básica que forma os polímeros. Mono significa um, o que explica a definição de monômero como unidade, ou parte fundamental para a existência de um polímero. Para se sintetizar um polímero é necessário combinar muitos monômeros.
O termo polímero é aplicado quando há pelo menos 50 monômeros unidos uns aos outros por ligações covalentes numa cadeia, sempre com a participação de carbono e hidrogênio, no caso de polímeros orgânicos. Pode-se dizer, ainda, que polímeros são macromoléculas que consistem de unidades químicas repetidas, ligadas umas às outras. Quando é necessária uma diferenciação, o termo copolímero é utilizado para definir aqueles materiais que apresentam dois ou mais tipos diferentes de monômeros.
Os polímeros orgânicos são compostos de estruturas complexas que se unem em longas cadeias moleculares que podem ser moldadas, extrudadas, modeladas em vários formatos e transformadas em filmes ou em filamentos para serem usadas como fibras têxteis.
Inicialmente eram conhecidos apenas os polímeros naturais, encontrados na natureza, como a celulose, o algodão e as resinas de origem natural. Depois vieram os polímeros naturais modificados, como a borracha vulcanizada. Os polímeros sintéticos, ou plásticos, como são usualmente chamados, começaram a ser desenvolvidos no final do século XIX, e ganharam grande importância na indústria, constituindo uma nova classe de materiais.
A resina é o material de base do polímero, e pode receber diversos aditivos, carga ou enchimento, para formar o produto chamado de plástico. O termo plástico frequentemente se confunde com polímero, embora esta identificação não seja rigorosa. O nome plástico vem do grego plastikós, que significa ‘adequado à moldagem’. Nem todos os polímeros sintéticos são plásticos devido ao seu comportamento mecânico, e por isso não deveriam ser considerados ‘plásticos’.
Composição
Petróleo e gás natural são as principais matérias primas para a produção dos plásticos. O processo de produção normalmente começa com o tratamento de componentes do óleo cru ou do gás natural em um processo de craqueamento. Este processo resulta na conversão destes componentes em monômeros de hidrocarbonetos, como etileno e propileno.
Outras etapas de processamento levam a uma ampla gama de monômeros, como estireno, cloreto de vinila, etilenoglicol, ácido tereftálico e muitos outros. Estes monômeros são então quimicamente unidos em cadeias, formando os polímeros. As diferentes combinações de monômeros levam a uma ampla gama de plásticos, com grande variação de propriedades e características.
Muitos plásticos são constituídos de monômeros de hidrocarbonetos. Eles são formados pelas ligações de muitos monômeros entre si em longas cadeias, que formam uma estrutura, dando origem a tipos diferentes de plásticos, como polietileno, polipropileno e poliestireno. Embora muitos plásticos sejam constituídos somente de carbono e hidrogênio, outros elementos podem estar presentes em sua estrutura, como oxigênio, cloro, flúor e nitrogênio. O PVC, ou poli(cloreto de vinila), contém cloro; o nylon contém nitrogênio; o teflon contém flúor; o poliéster e os policarbonatos contêm oxigênio.
Tipos
Os plásticos são divididos em dois grupos diferentes: os termoplásticos e os termorrígidos. Esta classificação se baseia nas características de fusão desses materiais. Ostermoplásticos podem ser aquecidos e moldados; quando reaquecidos, eles amolecem e podem ser moldados novamente. Este ciclo reversível de amolecimento e endurecimento é o que permite a reciclagem, uma vez que o processo pode ser repetido numerosas vezes. A maioria dos plásticos é de termoplásticos. Celuloide é um termoplástico. Já os plásticos termorrígidos (ou termofixos) podem ser moldados apenas uma única vez. Depois de moldados o reaquecimento poderá provocar a decomposição do material, e não sua fusão. Por este motivo, a reciclagem é muito difícil. Quando comparados aos termoplásticos eles apresentam maior estabilidade dimensional, mantêm suas propriedades em uma mais larga faixa de temperaturas, são mais resistentes aos solventes e muito convenientes para usos externos. Exemplos de plásticos termorrígidos são baquelite, poliuretanos – PU, epóxi e as resinas fenólicas.
Os plásticos são muito diferentes entre si, mas todos têm algumas características em comum: podem ser muito resistentes a agentes químicos presentes nos produtos de limpeza doméstica; podem ser isolantes térmicos e elétricos, embora já existam polímeros condutores de eletricidade; em geral são leves e possuem graus variáveis de resistência; podem ser processados de diversas formas para produzir fibras finíssimas ou objetos complexos (de garrafas a componentes de carros e adesivos); são materiais que, com diferentes aditivos e cores, podem ser usados em um sem número de aplicações, para reproduzir as características de materiais como algodão, seda e fibras de lã, porcelana e mármore, filmes flexíveis e isolantes térmicos para prédios. Os polímeros são normalmente produzidos a partir de petróleo, mas alguns podem ser produzidos a partir de gás natural ou carvão.
Aditivos
Muitos plásticos são misturados a aditivos durante seu processamento. Estes aditivos alteram ou melhoram as propriedades mecânicas, físicas ou químicas desses materiais. Os aditivos são usados para proteger os plásticos da descoloração produzida pela luz, do calor ou de bactérias; para mudar as propriedades do material, conferindo maior fluidez quando fundido; para dar cor; para dar estrutura na produção de espumas; para tornar o material pouco inflamável e para dar outras características especiais, com melhor aparência da superfície e redução da aspereza. Tipos de aditivos:
Enchedores ou cargas – são materiais geralmente adicionados aos polímeros para conferir melhores características de resistência à tração, compressão e abrasão, tenacidade eestabilidade dimensional e térmica. Os materiais geralmente adicionados são serragem, pó de sílica, vidro, cerâmica, talco e qualquer polímero sintético.
Plastificadores ou plastificantes – são materiais incorporados em certos plásticos para dar flexibilidade, tenacidade e ductilidade, ou seja, a capacidade de o material ser moldável. Os plastificadores também diminuem a dureza e a rigidez do material. Sua atuação se resume a ocupar os espaços livres entre as cadeias e efetivamente aumentar as distâncias entre elas. Plastificadores normalmente são usados em filmes plásticos e embalagens para alimentos.
Estabilizadores – adicionados aos polímeros, eles evitam a deterioração do material sob condições do ambiente, como exposição à luz e oxidação. Os estabilizadores têm a função de inibir tais reações químicas que resultam na deterioração do material polimérico.
Corantes – conferem cores aos polímeros. Podem ser adicionados na forma de pigmentos ou fazerem parte da massa. A grande diferença entre os dois tipos de corantes é que os pigmentos não se dissolvem no material.
Aditivos ignífugos – um dos maiores problemas dos polímeros é a inflamabilidade. Com exceção dos polímeros à base de cloro ou flúor, como cloreto de polivinila e politetrafluoretileno, todos os outros são muito inflamáveis. Os aditivos ignífugos retardam ou dificultam as reações de combustão e também podem gerar reações endotérmicas, para o resfriamento. Vários elementos químicos reduzem a inflamabilidade dos materiais, como fósforo, bromo, cloro, nitrogênio e boro. Os hidróxidos de alumínio e de magnésio também atuam como ignífugos. A capacidade de retardar as chamas pode ser provocada por reações químicas, por uma série de reações na própria chama ou por efeitos físicos, como a rarefação da atmosfera no local da combustão.
Métodos de processamento
Existem vários métodos de processamento para a fabricação de produtos plásticos. Quatro são os mais usados para fabricar produtos de uso cotidiano, como filmes plásticos, garrafas, sacolas e embalagens:
Extrusão: o termoplástico previamente aquecido é compactado, amolecido e, na forma de fluido viscoso, é inserido em uma matriz, onde se solidifica por meio de ventiladores ou água. Este método permite a fabricação de peças plásticas de boa qualidade, sendo a técnica mais utilizada atualmente. É um processo contínuo, com alta produtividade. Filmes plásticos e sacolas são fabricados pelo processo de extrusão.
Moldagem por injeção: a parte mais importante da máquina é o molde, que tem a forma oca do objeto a ser formado. O termoplástico, usualmente na forma de grânulos, é aquecido e empurrado por alta pressão para dentro do molde. O contato com as paredes resfriadas do molde provoca a solidificação do material na forma desejada. Quando o plástico resfria, o molde é aberto e o objeto pronto é ejetado. Este processo é usado para fabricar produtos como embalagens de manteiga, potes de iogurtes e tampas.
Moldagem por sopro: é um processo usado em conjunto com a moldagem por extrusão ou a moldagem por injeção. Permite a fabricação de peças ocas, como garrafas. Sua vantagem é a capacidade de produzir peças de paredes finas sem a necessidade de unir duas ou mais partes moldadas.
Moldagem por compressão: é o método mais antigo. Uma quantidade determinada de polímeros e aditivos é colocada entre a fêmea e o macho de um molde; o molde é fechado e submetido a aquecimento e pressão. Este método é usado para produzir plásticos termorrígidos.
Os 7 tipos de plásticos mais importantes 
PET - Poli(tereftalato de etileno)                                 Símbolo de reciclagem   
O poli(tereftalato de etileno) é transparente, inquebrável, impermeável e leve. Por conta de suas características, forma uma barreira capaz de reter gases e impedir a entrada de umidade, e isso é ideal para embalar bebidas, refrigerantes e outros alimentos. Como pode ser aquecido, também é utilizado na produção de bandejas para refeições pré-prontas, que podem ser levadas ao forno de microondas. O pet também é utilizado para embalar óleos, produtos de limpeza, cosméticos e produtos farmacêuticos. Ele também está em várias outras aplicações, como a produção de fibras para roupas e tapetes e plásticos de engenharia.
 

PEAD - Polietileno de alta densidade                                 Símbolo de reciclagem        
O polietileno de alta densidade tem muitas aplicações em embalagens de alimentos, produtos têxteis, cosméticos e embalagens descartáveis devido às suas características, como resistência química e excelente barreira contra a umidade. Ele é resistente a baixas temperaturas, leve, impermeável e rígido. É utilizado na fabricação de tampas de refrigerante, potes para freezer e garrafões de água mineral, brinquedos, eletrodomésticos, embalagens de produtos de limpeza como detergentes e água sanitária, cerdas de vassouras e escovas, fitas adesivas e sacaria.
  
 

  
PVC - Poli(cloreto de vinila)                                             Símbolo de reciclagem          
O poli(cloreto de vinila) tem como características principais excelente transparência, resistência química, estabilidade de longo prazo, resistência às mudanças de temperatura e estabilidade elétrica. Os produtos de vinil podem ser divididos entre duas grandes categorias, rígidos e flexíveis. Os rígidos são usados em engenharia, em aplicações como tubos e conexões, encaixes, pisos e esquadrias graças à sua grande resistência aos produtos químicos, ataques de bactérias e microorganismos e à corrosão. O vinil flexível é usado no revestimento de fios e cabos, como isolante, em filmes, em revestimentos para pisos, em produtos sintéticos que imitam couros, em revestimentos e tubos utilizados na área médica. O PVC também é usado na fabricação de brinquedos, certos tipos de tecidos, cartões de crédito, caixas de alimentos e tanques das máquinas de lavar roupas.
 

 
PEBD – Polietileno de baixa densidade                                  Símbolo de reciclagem
O PEBD é leve, transparente e impermeável. É usado principalmente para a fabricação de filmes em função de sua resistência, flexibilidade e transparência. Com baixa temperatura de fusão, o PEBD é muito usado também para selagem de embalagens e na impermeabilização de papel em embalagens tetrapak. Caixas para garrafas de refrigerantes, fios e cabos para televisão e telefone, filmes de uso geral, mangueiras, embalagens flexíveis, sacaria, tampas flexíveis, garrafas, fraldas e absorventes higiênicos são feitos com este tipo de plástico.  

 
PP – Polipropileno                                                Símbolo de reciclagem               
O polipropileno tem uma excelente resistência química, por isso, conserva o aroma e é resistente a mudanças de temperatura. Brilhante, rígido e inquebrável, é normalmente usado para acondicionamento e embalagem de alimentos. Como tem um elevado ponto de fusão, é ideal para produzir vasilhames resistentes a líquidos quentes. Ele é encontrado em embalagens flexíveis e rígidas, em fibras de tecidos e carpetes, em grandes peças moldadas para a indústria automotiva e produtos de consumo. Como outros plásticos, o polipropileno tem grande resistência à água, sal e soluções ácidas que são destrutivas para os metais. As aplicações mais comuns incluem garrafas de ketchup, embalagens de iogurte, embalagens de medicamentos e baterias de automóveis. Produtos cosméticos, tampas de refrigerante, potes para freezer, garrafões de água mineral, produtos hospitalares descartáveis, tubos para água quente, autopeças, fraldas e absorventes higiênicos também são feitos deste plástico.
 
  

PS – Poliestireno                                             Símbolo de reciclagem                      
O poliestireno é um plástico versátil, que pode ser rígido e também produzido como espuma. É impermeável, rígido, leve e transparente, mas quebra com facilidade. Sua transparência faz com que seja usado em equipamentos médicos e embalagens de alimentos, em produtos para laboratórios e em certos usos eletrônicos. Também são feitos de poliestireno aparelhos de barbear, copos descartáveis, potes para iogurte, eletrodomésticos, produtos para construção civil e autopeças. O poliestireno expansível é normalmente extrudado em folhas que são usadas para fabricar bandejas para carnes e queijos usadas em supermercados, além de pratos e tampas. Este material também é muito usado em restaurantes. Por seu reduzido peso, firmeza e excelente isolamento térmico, a comida pode ser transportada sem perder suas características.
 

 
Outros – Copolímero de etileno e acetato de vinila (EVA)   Símbolo de
                                                                                                            reciclagem          
Existem muitos outros plásticos além dos mais comuns relacionados acima como, por exemplo, o nylon, os poliuretanos e o polimetilmetacrilato. Nesta categoria encontram-se o copolímero de etileno e acetato de vinila, conhecido pela sigla EVA, empregado principalmente na fabricação de calçados, colas, adesivos, peças técnicas, fios e cabos, e também os plásticos ABS/SAN, PA e PC.Estes plásticos são usados para solados, autopeças, chinelos, pneus, acessórios esportivos e náuticos, plásticos especiais e de engenharia, CDs, eletrodomésticos e gabinetes de computadores.

Reciclagem
Os polímeros naturais, como a celulose, sofrem biodegradação com relativa facilidade. Já os polímeros sintéticos, normalmente derivados de petróleo, apresentam alta resistência a esse processo. Tal propriedade, desejável enquanto o material está sendo utilizado, torna-se um grande problema quando é descartado em lixões e aterros sanitários, já que o processo de degradação pode levar décadas. Quando não tem mais utilidade, o plástico pode ser matéria prima para novos produtos, por meio da reciclagem. As indústrias de artefatos plásticos utilizam o material reciclado na produção de baldes, cabides, garras de água sanitária, conduítes e acessórios para automóveis. É possível economizar até 50% de energia com o uso do plástico reciclado. Em 2009, cerca de 21,2% dos plásticos foram reciclados no Brasil, o que representou aproximadamente 556 mil toneladas por ano, de acordo com dados do Cempre – Compromisso Empresarial pela Reciclagem.
A reciclagem dos plásticos é dividida em dois tipos principais: a reciclagem energética e a reciclagem mecânica.
Reciclagem energética- os plásticos são queimados em fornos apropriados, e a energia gerada em forma de calor é aproveitada para a produção de outros materiais, como cimento. Economiza-se, desta forma, com o consumo de combustíveis tradicionais. Este processo é utilizado em alguns países, principalmente da Ásia.
Reciclagem mecânica- é a mais utilizada em todo o mundo. Após a coleta, os materiais são prensados e transportados até uma recicladora. Lá as garrafas e outros materiais plásticos passam por um processo de separação e moagem, transformando-se em flocos. Entram num sistema de lavagem e descontaminação, e, como material limpo, estão prontos para serem utilizados.
Bibliografia
Fotos:
Texto: Mari Menda
Comunicação e Marketing CRQ-IV
Supervisão: Prof. Antonio Carlos Massabni
Unesp-Araraquara
Retirado de http://crq4.org.br/default.php?p=texto.php&c=quimicaviva_plasticos acessado em 11 de maio de 2012

A Espectroscopia Raman revelando a química das obras de arte


Quando o assunto é arte, dificilmente se pensa em química. Aparentemente são atividades tão distintas que até estão associadas a lados diferentes do cérebro. A realidade, entretanto, vem se mostrando bem diferente: desde a escolha dos materiais a serem empregados até as metodologias usadas na restauração de uma obra ou a definição de estratégias para prevenir sua degradação passam, em maior ou menor grau, pela química. Além disso, ainda tem “a mãozinha” que essa ciência dá na hora de determinar se uma obra de arte é autêntica ou uma falsificação.
  
Pode-se dizer que mesmo para a comunidade artística, a química não é mais a ciência das substâncias mal cheirosas e explosivas. Ao contrário, novas ferramentas de análise foram desenvolvidas ao longo das últimas décadas, as quais sequer necessitam que sejam retiradas amostras da obra para se obter a informação desejada. Uma dessas ferramentas é a Espectroscopia Raman.
 
Quais os materiais empregados? Qual a técnica utilizada? No caso de uma pintura, quais os pigmentos utilizados? O que causa esse ou aquele tipo de degradação? Como evitar que a obra se degrade? É possível determinar se a obra é verdadeira? Essas são as questões mais frequentes quando a análise química se faz necessária. Não há dúvida de que vários métodos analíticos podem ser utilizados, mas a grande maioria deles demanda que um fragmento da obra seja removido, o que nem sempre é possível. A Espectroscopia Raman é uma ferramenta de análise através da qual é possível atender todas estas questões, sem que seja necessário coletar amostras do objeto, seja cortando-o, raspando-o, perfurando-o, vaporizando-o ou solubilizando-o.
 
O número de exemplos que podem ser encontrados na literatura acerca de aplicações da Espectroscopia Raman em temas relacionados à arte é muito grande e vem crescendo rapidamente. Por esse motivo, apenas alguns exemplos ilustrativos foram selecionados para este texto. No caso da caracterização de materiais há várias abordagens possíveis, mas certamente aquelas relacionadas à restauração de bens, à história da arte e à possibilidade de falsificações certamente se destacam.
 
No primeiro caso, um dos critérios a ser estritamente seguido na escolha dos materiais a serem empregados é o da compatibilidade química, sem o que pode haver comprometimento da obra (seja no aspecto estético, seja no aspecto mecânico ou mesmo da própria restauração). Um excelente exemplo é a identificação de pigmentos empregados na produção de uma pintura em tela: a Figura 1A mostra espectros do azul da Prússia, hexacianoferrato de ferro de fórmula Fe4[Fe(CN)6]3•14-16H2O e do azul de ftalocianina (ftalocianina de cobre), ambos pigmentos azuis. A figura 1B mostra que a coloração verde empregada em lápis de cor pode tanto decorrer de misturas de azul da Prússia e amarelo de cromio (cromato de chumbo, PbCrO4) quanto de azul de ftalocianina e um corante orgânico sintético, da classe das diarilidas (especificamente, diarilida 14). A identificação de pigmentos e corantes é um ponto muito importante na autenticação de obras de arte e tem, portanto, um papel fundamental na detecção de falsificações.
 
 
 
 
         Figura 1- Identificação de pigmentos: (A) Espectros Raman de pigmentos azuis;
         (B) Espectros Raman de pigmento verde (a), constituído por uma mistura de azul:
         ftalocianina de cobre, espectro (b), e amarelo, diarilida 14, espectro (c)
 
 
 
As questões referentes à história da arte têm desdobramentos variados, como em antropologia e economia, uma vez que a produção cultural reflete os valores de uma sociedade em certo período da história. Quando se descobriu a similaridade na composição química de um pigmento sintético produzido pelos egípcios há cerca de 3000 anos (azul do Egito, CaCuSi2O6) com o pigmento conhecido como azul de Han (BaCuSi2O6, também conhecido como azul da China), empregado pelos chineses aproximadamente na mesma época, aventou-se a possibilidade de ter havido uma rota de comércio entre essas duas civilizações, o que foi descartado posteriormente. Esse fato exemplifica, entretanto, quanto é importante a obtenção de informações referentes à composição química de materiais empregados na produção de bens culturais.
 
Será que os egípcios têm algo mais a nos revelar em termos de pigmentos? Quais teriam sido os materiais empregados por eles na decoração de um sarcófago encontrado em um sepultamento do período greco-romano de cerca de 2000 anos de idade? Fragmentos de artefatos relacionados a práticas funerárias do Egito antigo (Figura 2) pertencentes ao Museu de Manchester (Reino Unido) foram analisados por Microscopia Raman permitindo a identificação dos pigmentos usados: hematita (-Fe2O3) para o vermelho, mistura de hematita e calcita (CaCO3) para a cor rosa, ouropigmento (AS2S3) no caso do amarelo e carvão como pigmento preto. A cor laranja foi preparada misturando-se hematita com ouropigmento ou então usando massicote e litargírio (PbO ortorrômbico e tetragonal, respectivamente) e a cor azul foi identificada com sendo produzida por lazurita (um aluminosilicato de composição Na3CaAl3Si3O12S). O substrato para esses desenhos foi uma mistura de calcita, cal e gesso e a decoração foi coberta por uma resina, cuja origem não pôde ser determinada com precisão.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Figura 2 - Foto de fragmento de sarcófago egípcio
 analisado por Microscopia Raman
 
 
Esse exemplo, apesar de não implicar em grandes revelações históricas ou econômicas, ilustra a eficiência da Microscopia Raman na identificação não destrutiva da composição química de um objeto. Por outro lado, essas informações, auxiliam na compreensão do contexto histórico-cultural de uma sociedade e, por vezes, também no esclarecimento da técnica empregada na fabricação do objeto. Esse fato pode ser exemplificado através da arte indígena: a decoração de potes cerâmicos é uma das características marcantes dessa arte e, certamente, saber como essa decoração foi aplicada pode revelar aspectos do conhecimento técnico de determinados grupos nativos. Geralmente as cores usadas são provenientes de minerais e espécies químicas sensíveis ao calor e podem servir como indicadores para se saber se a peça foi decorada antes ou após ter sido queimada. Um bom exemplo disso são os óxidos de ferro já que, sob aquecimento, goetita [oxi-hidróxido de ferro de fórmula -FeO(OH)] e magnetita (Fe3O4) podem ser convertidos a hematita em temperaturas compatíveis com as produzidas por fogueiras (tipicamente entre 500 e 700 °C), e a detecção desses minerais em objetos cerâmicos decorados pode indicar que a decoração foi feita posteriormente à queima da argila.
 
A identificação de pigmentos empregados em bens culturais dos mais variados tipos com certeza é um dos tópicos mais explorados em termos de aplicação de Microscopia Raman. É possível fazer a identificação inequívoca de pigmentos usados em inúmeros contextos, dentre os quais se destacam pinturas rupestres, arte pré-colombiana, arte indígena brasileira, selos, esculturas, tecidos, murais e pinturas. A utilização de um microscópio permite analisar misturas de pigmentos e discriminar partículas que tenham dimensões de poucos micrômetros. Uma ótima ilustração acerca da potencialidade da técnica nessa área é um estudo de iluminuras presentes em um livro religioso bizantino do século 13, pertencente à Biblioteca Britânica. Iluminuras são pinturas coloridas usadas para decorar o início de capítulos em textos religiosos e, neste caso, continham anjos negros, o que tornava a obra particularmente valiosa por sua raridade, mas a análise por Microscopia Raman revelou que a cor negra era decorrente de reação posterior sofrida pelo pigmento branco, carbonato básico de chumbo, Pb3(CO3)2(OH)2, com H2S presente no ambiente, resultando em sulfeto de chumbo PbS, pigmento preto.
 
A aplicabilidade da técnica não é restrita a compostos inorgânicos, como os exemplos dados podem sugerir, estendendo-se igualmente a substâncias orgânicas naturais ou sintéticas, como demonstrado em um estudo sobre um tembetá de resina pertencente ao Museu de Arte e Etnologia da USP. Tembetás são adornos labiais usados por grupos indígenas e podem ser de madeira, pedra ou ainda, mais raramente, de resina vegetal. O tembetá estudado foi encontrado em pedaços em um sítio arqueológico no interior de São Paulo, sendo que a parte interna dos fragmentos apresentava um brilho vítreo enquanto a parte externa tinha um aspecto ferruginoso, o que poderia indicar tratamento ou acabamento da peça com óxidos de ferro. A análise por Microscopia Raman revelou que o tembetá era constituído de uma resina triterpênica e que o aspecto terroso era devido à resina degradada por efeito de intempéries.
 
 
  Órgão datado de 1625 em igreja da França: tubos de chumbo
  sujeitos a corrosão
 
 
A própria questão da investigação da degradação de bens culturais, incluindo obras de arte, também tem na Espectroscopia Raman uma poderosa aliada. Os processos de decaimento podem ter incontáveis causas, mas o diagnóstico certamente passa pela identificação de produtos de degradação, como pode ser exemplificado no estudo de corrosão de metais. Apesar da Espectroscopia Raman não permitir a análise elementar, o que a torna ineficaz no estudo de metais e suas ligas, a caracterização de produtos de corrosão pode trazer informações muito importantes sobre os agentes agressores, levando à adoção de estratégias preventivas. Um excelente exemplo é o da corrosão de chumbo que afeta tubos metálicos de órgãos históricos (séc. XVI e XVII) na Europa: a corrosão é causada pelos ácidos orgânicos (principalmente fórmico e acético) que são produzidos pela madeira que constitui a estrutura e caixa de ar dos instrumentos, a qual, ao sofrer hidrólise no processo natural de envelhecimento, libera além desses, outros produtos orgânicos voláteis. Esculturas de chumbo em contato com madeira, com tintas ou outras substâncias que produzem formaldeído também tem seu processo de corrosão acelerado grandemente. 
 
 
 
A identificação da composição química de objetos também é incontestavelmente relevante do ponto de vista forense, no que diz respeito às falsificações. Objetos de marfim, como pequenas esculturas, por exemplo, são alvos insistentes de falsificadores, devido ao valor desse material, à relativa facilidade em imitá-lo e à grande procura que desperta. Uma das formas de avaliar a autenticidade da peça é através de suas propriedades, como a densidade, mas falsificadores hábeis podem mimetizar a densidade do marfim através da mistura de diferentes substâncias. A Espectroscopia Raman permite a identificação imediata de imitações. Na análise de vários pequenos objetos entalhados, supostamente de marfim, verificou-se que em vários casos tratava-se de uma mistura de polímeros sintéticos (poliestireno e polimetilmetacrilato) à qual havia sido adicionado carbonato de cálcio, provavelmente para simular as características físicas do marfim.                                                                Díptico de marfim com cena da paixão
                                                                                                            de Cristo. França, cerca de 1250
 
Pigmentos e corantes também são extremamente úteis quando a questão da autenticidade de uma obra de arte é considerada. No século XX ocorreu grande expansão da indústria química de corantes e pigmentos; a identificação de colorantes modernos em obras antigas facilita a detecção de fraudes. Assim, é possível associar, de forma inequívoca, na maioria dos casos, a presença de determinadas substâncias colorantes com datas específicas. Talvez o melhor exemplo seja o das ftalocianinas. Por serem substâncias sintéticas, sua comercialização iniciou-se na década de 1930 e sua detecção em obras de arte datadas de períodos anteriores sugere que sua autenticidade pode ser questionada.
 
Como comentário final, cabe concluir que este texto pretendeu mostrar através de alguns exemplos que a química está presente na intimidade da arte e é a guardiã de segredos valiosos, os quais a Espectroscopia Raman vem ajudando a desvendar.
 
 
 
                                              
 
 
 
 
Fotos:
wikimedia commons
 
 
Bibliografia consultada
 
1. H. Berke, Chemical Society Reviews 2007, 36, 15-30.
 
2. H.G.M. Edwards, S.E.J. Villar, A.R. David, D.L.A. de Faria, Analytical Chimica Acta, 503 223-233, 2004.
 
3. R.J.H. Clark e P. Gibbs, Anal. Chem., News & Features 99A-104A, 1998.
 
4. D.L.A. de Faria, H.G.M. Edwards, M.C. Afonso, R.H. Brody e J.L. Morais, Spectrochimimica Acta Part A, 60, 1505-1513, 2004.
 
5. http://www.goart.gu.se/sensorgan
 
6. H.G.M. Edwards e D.W. Farwell, Spectrochim. Acta Part A, 51, 2073-2081,1995.
 
 
 
Profa. Dra. Dalva L. A. de Faria
Laboratório de Espectroscopia Molecular
Instituto de Química da USP
 
 
Revisão Prof. Antonio Carlos Massabni
IQ-Unesp de Araraquara
 

O papel do químico na área de restauração e conservação do patrimônio cultural


A associação entre química e arte pode parecer um pouco inusitada se considerada sob o olhar do homem contemporâneo. Com os rumos tomados pelas ciências nos séculos XIX e XX, a química foi incorporada no conjunto das ciências exatas com a percepção de que tenha pouco ou nada a ver com a arte, a qual seria ligada exclusivamente à imaginação e à criatividade – como se a criação artística e o raciocínio exato fossem habilidades humanas incompatíveis entre si. Mas, pensando bem, percebemos que esta separação estabelecida no imaginário coletivo nem sempre correspondeu à realidade, já que no passado era normal os artistas, pensadores e filósofos transitarem com desenvoltura tanto pelas atividades “exatas” (engenharia, alquimia, astronomia) como pelas chamadas belas artes. Um exemplo emblemático é o do Leonardo da Vinci, a quem o simples atributo de engenheiro ou de pintor ficaria muito limitado visto o grande número de obras artísticas e técnicas deixadas por ele como legado, na prática ou no papel.
 
 
Pensar que o exercício da criatividade artística dispensa o conhecimento das propriedades dos materiais e das técnicas para o seu manuseio é um equívoco. É impensável supor que os pintores não precisem saber misturar os pigmentos inorgânicos (alguns dos quais têm nomes bem químicos, como amarelo de cádmio, óxido verde de cromio ou branco de chumbo) com os ligantes, nem que possam se dar ao luxo de desconhecer e saber ajustar o processo de secagem dos diversos óleos naturais (ou sintéticos) e das resinas usadas como vernizes. Criar obras de arte requer matéria e a capacidade de usá-la a serviço da criatividade. Aliás, pesquisas com algumas das técnicas mais modernas de análise estão revelando a habilidade singular de alguns pintores do passado no domínio da arte de fabricar e manusear as tintas partindo dos mais diversos tipos de substratos visando criar os efeitos plásticos desejados. Incrivelmente, até os nossos mais distantes antepassados que deixaram suas manifestações artísticas pintadas na rocha das cavernas parece que lançaram mão de estratagemas dignos de um químico moderno no desenho das pinturas rupestres.
 
Saber se aprofundar nas propriedades da matéria e entender como controlá-las é importante até mesmo no caso das formas menos palpáveis de arte, como a música. Alguns construtores de instrumentos musicais, como violinos ou órgãos de tubos dos séculos XVII e XVIII, foram grandes mestres e moldaram instrumentos únicos apreciados até hoje também por terem sido grandes conhecedores das madeiras, dos metais e dos vernizes.
 
Que a química tenha um papel fundamental na evolução das artes plásticas é, em suma, algo que dificilmente pode ser questionado: sirva ainda como último exemplo a revolução representada pelo surgimento dos polímeros sintéticos. Não somente essa inovação abriu as portas para a introdução de inúmeros novos materiais plásticos e técnicas de pintura (por exemplo, o acrílico) sem os quais não existiria boa parte da arte contemporânea, como a química estimulou um maior aproveitamento de polímeros naturais, proteínas e fibras vegetais.
 
Um aspecto que cabe frisar sobre as relações entre a química e os bens culturais é a contribuição desta ciência no processo de restauração e preservação de obras de arte. Trata-se de uma nova área específica de atuação que vem crescendo, ganhando cada vez mais reconhecimento e oferecendo oportunidades de inserção para os profissionais da química. Em alguns países, onde a percepção da importância do patrimônio cultural se impôs mais cedo, como a Inglaterra, esta visão já está bem consolidada. Foi um cientista inglês, Garry Thomson, que escreveu o primeiro livro de larga difusão que explica como gerenciar os fatores ambientais dos museus para otimizar a conservação dos objetos neles conservados. A primeira edição, de 1978, mostra como a National Gallery de Londres já tinha uma longa tradição de preocupação com a qualidade dos ambientes de conservação e estratégias cientificamente fundamentadas para melhorar suas características. Entre os anos 80 e 90 esta visão se expandiu em todo o planeta e hoje a restauração e a preservação de obras de arte são realizadas em praticamente todos os países do mundo, inclusive o Brasil.
 
Atualmente existe uma clara distinção entre restauração, quando se tenta reverter um processo de degradação, e preservação, em que se busca evitar o dano com medidas preventivas. Nesse contexto, é importante mencionar a nova tendência voltada para estudar o efeito dos poluentes atmosféricos nas obras de arte. Os poluentes podem penetrar nos museus vindos do ar externo ou ainda ser gerados diretamente dentro dos espaços de conservação, por exemplo, emitidos pelos materiais de construção ou por produtos de limpeza. O químico não somente é o profissional mais preparado para detectar a presença destas substâncias no ar, como também para prever e estudar seus efeitos nos diversos tipos de materiais, como tintas, metais, papel, madeira, fibras naturais e artificiais, e ainda propor soluções para evitar a degradação das obras de arte.
 
Os químicos podem atuar na caracterização dos materiais: a composição de uma liga pode ter papel fundamental no risco de corrosão de um objeto metálico; pigmentos distintos respondem de formas variadas aos estímulos externos; a restauração de um quadro pode requerer a identificação das tintas originais utilizadas ou, ainda, o esclarecimento da paleta de uma pintura (conjunto dos pigmentos originais utilizados pelo artista) que é certamente uma ferramenta importante para melhorar o conhecimento da origem e da trajetória de uma determinada obra. As investigações podem ser realizadas nos artefatos originais ou serem desenvolvidas em corpos de prova. Mas, de qualquer forma, todo e qualquer estudo quase sempre depende do emprego de técnicas de análise e hoje a disponibilidade de modernas tecnologias, como os lasers, determinou um enorme avanço nessa área. Por exemplo, a tecnologia trouxe a possibilidade de se realizar diversos tipos de exames dos materiais de forma não destrutiva ou não invasiva, o que é vital quando se lida com objetos únicos como estes. Nisso, o Brasil tem mantido uma posição de destaque no contexto internacional, em áreas como a espectroscopia Raman, a análise elementar ou ainda as relações entre ambiente, poluentes e obras de arte.
 
Uma área de pesquisa e desenvolvimento particularmente forte, inclusive na Europa e na América Latina, são os estudos de arqueologia, etnografia e arte rupestre em que a análise de peças produzidas por populações indígenas tem um significado particular. Aqui, a contribuição do químico em entender a composição dos materiais e os processos ocorridos com eles ao longo do tempo pode ajudar a desvendar aspectos culturais, religiosos e antropológicos.
 
O profissional para este tipo de atuação precisa ter uma sólida formação e profundos conhecimentos de química (química orgânica e inorgânica, química analítica, técnicas instrumentais, espectroscopia e fotoquímica), mas necessita também desenvolver outras habilidades, como a capacidade de interagir e dialogar com profissionais com outras formações para extrair elementos para a interpretação de seus dados e o interesse em lidar com pessoas e instituições, inclusive de outros países.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Andrea Cavicchioli
Escola de Artes, Ciências e Humanidades - USP Leste
 
 
Revisão: Prof. Antonio Carlos Massabni
Unesp-Araraquara
 
Apoio: Mari Menda
Departamento de Comunicação e Marketing CRQ-IV
 
 
Imagens: Wiki Media Commons
Foto de autor desconhecido - Julian Dupre em seu estúdio 1905/1906
John Singer Sargent - An Out-Of-Doors Study, ca.1889 - Brooklyn Museum
Pintura rupestre: Cueva de las Manos, Argentina


Retirado de http://crq4.org.br/default.php?p=texto.php&c=quimicaviva_quimicaearte acessado em 11 de maio de 2012 

Tabela Períodica

O CRQ-IV disponibiliza uma versão em pdf da Tabela Periódica para download gratuito.


Iniciativa da Comissão de Divulgação do CRQ-IV, e destinada a professores, estudantes e interessados em geral, a tabela foi elaborada com base na mais recente tabela da Iupac, publicada em janeiro de 2011.  A tabela periódica e os dois arquivos complementares estão disponíveis para download, sem qualquer custo, em dois formatos, pdf em baixa resolução e jpg em alta resolução.



- Tabela periódica
 
 
 
  
- Lista dos elementos em ordem alfabética
  Com nome, símbolo, número atômico e massa atômica de cada um dos elementos
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
- Informações complementares
 Ajudam a entender a localização dos elementos na tabela e trazem outros dados importantes
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
  
Supervisão
Prof. Antonio Carlos Massabni - Unesp Araraquara
Profa. Vera Leopoldo Constantino - IQ/USP
 
Layout
Mari Menda - Departamento de Comunicação e Marketing CRQ-IV
 
Iniciativa da Comissão de Divulgação do CRQ-IV
 
  

Retirado de http://crq4.org.br/default.php?p=texto.php&c=quimicaviva_tabelaperiodica acessado em 11 de maio de 2012

Marie Curie no Brasil



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
                                                                                        
 
 
                                                                       Marie Sklodowska Curie       Reprodução
                                                                                            Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais
                                                                                                                         Cememor Fac.Medicina UFMG
 
 
Os jornais deram ampla cobertura e abriram espaço para reportagens, fotos e entrevistas com a eminente figura; as emissoras de rádio divulgaram a agenda de palestras, dados sobre a vida e a programação da visitante em território brasileiro. Ao desembarcar do navio Pincio no porto do Rio de Janeiro, em 15 de julho de 1926, a polonesa Marie Sklodowska Curie foi saudada por repórteres de jornais como O Globo, O Paiz, O Estado de São Paulo, A Gazeta Clínica e o Jornal do Brasil, e pela comunidade científica brasileira. O alvoroço da imprensa era justificado pela importância da visitante: na década de 1920, Marie Curie era uma das cientistas mais conceituadas e admiradas do mundo. Já ganhara dois Prêmios Nobel, de física, em 1903, e de química em 1911, por suas descobertas sobre a radioatividade e os elementos químicos polônio e rádio; era a primeira mulher a dar aulas na Universidade Sorbonne; fundara e coordenava o Instituto do Rádio, em Paris, que fazia pesquisas para tratamento do câncer. Madame Curie, como era chamada na época, também ganhou a simpatia mundial ao desenvolver aparelhos de raios-X, equipar veículos com eles, treinar enfermeiros para operá-los e levá-los aos campos de batalha da primeira guerra mundial, para atendimento dos soldados feridos em combate. Era uma cientista em plena atividade, e trabalhava pela divulgação da ciência e do conhecimento científico.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  Álbum do Dr. Francisco Tozzi reúne reportagens sobre a visita de Marie Curie 
  ao Brasil                                                      Arquivo Mirian Tozzi/Reprodução Mari Menda 
 
 
 
Já o Brasil vivia um período de grande interesse pelas descobertas científicas, e cientistas estrangeiros eram convidados a vir ao país para dar aulas, visitar centros de pesquisas e conhecer as potencialidades de um país que começava a despertar para as ciências. Um ano antes da chegada da cientista polonesa o Brasil já recebera Albert Einstein, que teve tratamento digno de celebridade. Além dos jornais, que divulgavam a agenda desses visitantes, o rádio, primeiro meio de comunicação de massa, transmitia programas científicos e de divulgação cultural a um público ávido por notícias, novidades e informação. Nas primeiras décadas do século XX a pequena comunidade acadêmica do país era receptiva a grandes nomes da química, da física, da matemática, e além de Madame Curie, o país também recebeu cientistas ilustres como os matemáticos Jacques Hadamard e Émile Borel, o antropólogo Paul Rivet e o físico Paul Langevin.
 
 
 
 
Rio de Janeiro
 
Marie Curie passou 45 dias no Brasil, acompanhada da filha mais velha, Irène. Veio a convite do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, hoje extinto, uma instituição voltada à divulgação científica mantida pela embaixada francesa no Rio de Janeiro. O Instituto organizou na então capital federal uma série de conferências sobre a radioatividade na Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo Madame Curie como principal oradora. As conferências foram realizadas na escola, localizada no Largo de São Francisco de Paula, no centro do Rio. A primeira emissora de rádio do país, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada quatro anos antes por Roquette Pinto, chegou a transmitir as conferências. Os jornais deram destaque à presença da cientista e fizeram muitas reportagens para falar de sua vida, seu trabalho e sua agenda no Brasil. Na série de palestras da Escola Politécnica, sempre às terças e sextas feiras, ela tratou de temas ligados à radioatividade, abordando a cada dia questões como as transformações radioativas, os efeitos das radiações, as famílias dos radioelementos e os depósitos das emanações. As palestras eram acompanhadas pela imprensa, e noticiadas com grande destaque, principalmente pelo jornal O Paiz.
 
 
As notícias da época informam que, entre um compromisso acadêmico e outro, Madame Curie teve interesse em conhecer pontos turísticos e culturais do Rio, como a Ilha de Paquetá, o Pão de Açúcar, o Jardim Botânico e o Museu Nacional, que já mantinha um grande acervo científico, localizado na Quinta da Boa Vista. No livro Madame Curie, a filha caçula, Eve Curie, contou que a mãe aproveitou sua estadia no Rio para passear incógnita pela cidade, descansar e tomar muitos banhos de mar.
                                                                                                                                                                  
 
                                                                                             Prédio da Escola Politécnica, no Largo
                                                                                                                                    de São Francisco
       
 
 
                                  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  Visita ao Pão de Açúcar                       Foto: Museu Curie/Paris
 
 
 
Curie e Irène ficaram hospedadas no famosoHotel dos Estrangeiros, no bairro doFlamengo. Mas não se limitaram ao Rio; fizeram viagens aos estados de São Paulo e Minas Gerais. “Madame Curie tinha o desejo de conhecer as nossas riquezas naturais”, afirma uma reportagem da época, do jornal Gazeta Clínica.
 
 
 
 
 São Paulo
 
 
A viagem do Rio a São Paulo foi feita pelo trem noturno, em um carro especialmente reservado para Curie e sua comitiva. A cientista chegou a São Paulo no dia 13 de agosto acompanhada da filha Irène, de Bertha Lutz, Dra. Carlota Pereira de Queiroz e Nininha Bastos para três dias de permanência, a convite do governo do Estado. Madame Curie foi recebida na Estação do Norte, no Brás, atual Estação Roosevelt, por autoridades, estudantes de medicina, personalidades da medicina e da ciência e franceses residentes na cidade. Dr. Eugenio Lindemberg, da Sociedade de Química, era um dos presentes, informa uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   Reportagem do jornal O Estado de São Paulo de 14 de agosto
   de 1926                             Arquivo Mirian Tozzi/Reprodução Alex Silva
 
 
 
Entre seus principais compromissos em São Paulo constava uma palestra sobre radiologia no anfiteatro da Faculdade de Medicina, em Pinheiros. Para um auditório lotado, formado por professores da faculdade, médicos, estudantes de medicina e ‘muitas senhoras e senhoritas’, como informa a reportagem de O Estado de São Paulo, ela abriu a conferência recordando a descoberta de Becquerel – “foi este sábio que encontrou no urânio propriedades físicas inteiramente novas” – e garantiu: “esses fenômenos reservam ao mundo surpresas inconcebíveis”. Madame Curie afirmou que já eram conhecidos 40 elementos radioativos e falou mais detidamente sobre três séries: do urânio, do tório e do actínio. Ilustrou a palestra com ‘diversas projeções luminosas’ e explicou minuciosamente a existência de emanações no meio ambiente. A filha Irène e o cônsul da França, Marcel de Verneuil, faziam parte da mesa.
 
 
Na capital ela também fez uma demorada visita ao Instituto Butantan ‘tendo palavras elogiosas para a organização e os fins do Instituto’, diz uma reportagem de O Estado de São Paulo. Visitou também a Estação Biológica do Alto da Serra, a convite de seu diretor, Frederico Carlos Hoehne, e foi recebida por autoridades. Madame Curie e sua filha ficaram hospedadas no antigoHotel Terminus, na Avenida Prestes Maia, no centro da cidade, já demolido.
 
 
 
Bertha Lutz, integrante do grupo que acompanhava Curie desde o Rio de Janeiro, enviou um relato publicado no jornal O Estado de São Paulo de 19 de agosto de 1926 informando que a cientista também fez contatos com autoridades do governo: “Alcançou êxito a visita da Sra. Curie acompanhada pela Federação do Congresso Feminino a São Paulo. Foram feitas visitas oficiais ao presidente do Estado e ao secretário do interior, recebendo-se a visita do prefeito. Acompanhadas de representantes da Faculdade de Medicina e de instituições científicas, visitamos o Instituto Butantã e as thermas radioativas de Lindoya. Desejaria salientar a ótima impressão da Sra. Curie obtida na Estação Biológica do Alto da Serra, dirigida pelo botânico Sr. Hoehne, do Museu Paulista, iniciativa de alto valor científico”. Observe-se que ‘presidente do Estado’ hoje significa governador do Estado.
 
 
 
Águas de Lindóia
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
    Fachada do Hotel Glória, em Thermas de Lindoya, na década de 1920
    Arquivo Mirian Tozzi/Reprodução Alex Silva
 
 
Aproveitando a proximidade da capital paulista e o convite feito pelo médico italiano Dr. Francisco Tozzi, Madame Curie decidiu fazer uma rápida viagem a Thermas de Lindoya, hoje município de Águas de Lindóia, para conhecer as fontes de águas radioativas. A viagem de trem, da Estação da Luz até Mogi Mirim, consumiu a manhã inteira do dia 14 de agosto de 1926, e foi feita em confortáveis poltronas pulmann, salientava a imprensa da época.
 
O jornal Gazeta Clínica, de São Paulo, na edição do dia 15 de agosto, conta que Madame Curie estava acompanhada da filha Irène e de uma comitiva de cientistas brasileiros. O trem deixou o grupo em Mogi Mirim, e de lá todos seguiram de carro até Thermas de Lindoya passando por Itapira. 
                                                                                                                           Dr. Francisco Tozzi
                                                                                                                             Arquivo Mirian Tozzi/
                                                                                                                           Reprodução Alex Silva
 
 
 
  Chegada de Madame Curie ao Hotel Glória
  Arquivo Mirian Tozzi/Reprodução Alex Silva
 
 
Ao chegar a Thermas de Lindoya o grupo seguiu direto para o Hotel Glória, de propriedade do Dr. Tozzi, que ofereceu um almoço festivo ao grupo e inaugurou oficialmente um retrato da cientista em um de seus salões. Madame Curie e sua filha conheceram os hotéis, os pavilhões de banho, os locais de engarrafamento das águas, as fontes Filomena e São Roque e os salões de emanações. ‘Depois de um ligeiro descanso, percorreu a Sra. Curie os departamentos das termas, sempre acompanhada de químicos de São Paulo. No estabelecimento do rádio demorou-se algum tempo apreciando a ebulição das águas, dizendo nessa ocasião que aquele estabelecimento estava talhado a um grande futuro, e felicitava o Dr. Tozzi, pois as suas observações ligeiras asseguravam que aquelas águas eram fortemente radioativas’, informa uma reportagem do Jornal do Brasil.
 
 
      
                    Madame Curie caminha por Thermas de Lindoya
                    Arquivo Mirian Tozzi/Reprodução Alex Silva
 
 
 
 
 
 
“Madame Curie quis visitar Águas de Lindóia porque sabia que aqui existiam águas radioativas. Meu avô, quando fazia palestras, já citava a radioatividade da água. Em suas conferências, afirmava que as curas eram promovidas pela radioatividade”, conta Mirian Tozzi, neta do médico Francisco Tozzi, que em 1916 fundou o vilarejo de Thermas de Lindoya. O Dr. Tozzi, que era especializado em tratamentos termais, tornou a localidade famosa no mundo ao divulgar seus estudos sobre a composição e as propriedades curativas das águas que saíam das fontes do local.
 
 
Ela conta que o Dr. Tozzi deu o nome de Madame Curie a uma sala de emanações: “A sala tinha uma espécie de piscina, e da água saíam gases que formavam bolhas. Naquele local as pessoas doentes sentavam por algum tempo em bancos e respiravam as emanações do rádio liberadas na água”. A sala das emanações foi desativada quando o Estado desapropriou as termas, ela relata, e hoje está fechada ao público. Atualmente a piscina fica dentro de uma sala totalmente vedada, com acesso por uma pequena janela. Pode-se ver o fundo de rochas, e todo o ambiente é aquecido. A água, cristalina, com temperatura de 30°C, brota de uma fenda com um quilômetro de profundidade. “Este foi o lugar mais importante visto por Marie Curie em Thermas de Lindoya”, afirma Mirian Tozzi. A neta do Dr. Tozzi continua morando na cidade, e preserva um grande acervo de objetos, fotografias e textos do avô.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                                                      
                                                                                    
                                    
                                     A sala de emanações como era na época da visita de Madame Curie
                                                                                            Arquivo Mirian Tozzi/Reprodução Alex Silva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  A sala de emanações hoje: fechada ao público                                                       Fotos Alex Silva
 
A comitiva que acompanhou Madame Curie a Águas de Lindóia tinha cerca de 20 pessoas de várias sociedades científicas, como a zoóloga e feminista Bertha Lutz, Bruno Chirstini, da Sociedade de Farmácia e Química, o médico Oswaldo Portugal, da Sociedade de Medicina e Cirurgia e Paulo Guimarães da Fonseca, representante da Sociedade de Química e professor da Escola Politécnica da USP. O grupo voltou a São Paulo de automóvel naquele mesmo dia.
 
 
 
Belo Horizonte
 
Partindo de São Paulo no domingo à noite, Marie Curie e sua filha chegaram segunda feira, dia 16 de agosto de 1926, em Minas Gerais. Na longa viagem pelo trem noturno de luxo até Belo Horizonte, com uma parada em Barra do Piraí, foram acompanhadas pela deputada paulista Maria José de Queiroz, que, como Bertha Lutz, foi uma das pioneiras do feminismo no Brasil. Segundo o Prof. João Amilcar Salgado, fundador do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, o grande interesse de Madame Curie na capital mineira era conhecer o Instituto do Rádio, primeiro hospital especialmente dedicado ao câncer a funcionar nas Américas.
 
Construído em 1922 por iniciativa do diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Prof. Borges da Costa, o Instituto foi criado com o objetivo estudar o rádio e os raios-X, divulgar a doença ao público e fazer atendimento à população. Madame Curie e Irène conheceram as instalações do Instituto, assinaram o livro de registro de visitas e bateram uma foto histórica, nos jardins da edificação, ao lado de médicos, funcionários e do Dr. Borges da Costa, que foi o primeiro diretor do hospital.
 
 
 Madame Curie e Irène (ao centro) em visita ao Instituto do Rádio
 Reprodução: Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais-Cememor Fac.Medicina UFMG
 
 
No dia seguinte, de acordo com o Prof. Salgado, Marie Curie fez uma conferência sobre a radioatividade e suas aplicações, na Faculdade de Medicina. Na platéia, estudantes de medicina que depois se tornariam personalidades famosas no país: Pedro Nava, Juscelino Kubistchek e João Guimarães Rosa. Anos mais tarde o Instituto do Rádio mudaria de nome, passando a se chamar Instituto Borges da Costa, em homenagem a seu fundador. Continua em funcionamento até hoje, depois de passar por uma grande reforma. Jornais que acompanharam a cientista relatam que Marie Curie e sua comitiva também fizeram visitas a autoridades do Estado e à prefeitura de Belo Horizonte.
 
A comitiva embarcou para o Rio de Janeiro na quarta-feira, dia 18. De volta ao Rio depois do giro por São Paulo e Minas, Marie Curie foi homenageada pela Academia Nacional de Medicina em 19 de agosto, sendo declarada sócia honorária, e lá fez mais uma conferência. Mãe e filha voltaram à França no dia 28 de agosto, à bordo do navio Lutetia. Marie Curie manteve seu trabalho no Instituto do Rádio, e continuou a fazer viagens internacionais. Ela morreu oito anos depois de visitar o Brasil, em 1934, aos 67 anos. O Instituto do Rádio, fundado por ela em Paris em 1909, existe até hoje. É o maior centro dedicado à pesquisa do câncer na França. Lá funciona o Museu Curie, no mesmo local em que, em 1898, Pierre e Marie, trabalhando em um laboratório improvisado, descobriram o polônio e o rádio, dando início a toda esta história.
 
 
 
Escândalo
 
 
Notícias de jornal da época informam que Madame Curie visitaria outras localidades durante sua estada em Minas Gerais. Ela iria a cidades próximas a Belo Horizonte, como Lagoa Santa, Sabará e a mina de Morro Velho, hoje situada em Nova Lima. De acordo com o fundador do Centro de Memória da Medicina, da Faculdade de Medicina da UFMG, Prof. João Amilcar Salgado, estes passeios foram cancelados em cima da hora porque as esposas dos médicos e dos representantes de associações científicas ficaram enciumadas. Estes temores explicam-se pelo grande escândalo que envolveu Madame Curie 15 anos antes de sua visita ao Brasil. Viúva e jovem, ela teve um envolvimento amoroso com o físico Paul Langevin, brilhante ex-aluno de seu marido Pierre Curie. Em 1911 Langevin já estava separado da mulher, com quem teve quatro filhos, quando se aproximou romanticamente de Curie, mas a imprensa conservadora da época acusou Madame Curie, uma estrangeira e ainda por cima com hábitos não convencionais, de ter acabado com o casamento de respeitáveis cidadãos franceses.
 
Cartas trocadas entre Langevin e Curie foram publicadas pela imprensa sensacionalista. A comoção popular foi tão grande que manifestantes chegaram a fazer piquetes em frente à residência dos Curie, em Paris. O escândalo estourou na mesma época em que a cientista polonesa era anunciada como ganhadora do Prêmio Nobel de Química, em 1911. Abrigada na casa de amigos com as duas filhas, Marie Curie rompeu o relacionamento com Langevin e declarou-se envergonhada por macular o nome do marido Pierre Curie.
 
 
 
 
 
        Paul Langevin
 
 
 
 
 
 
Texto
Mari Menda – Jornalista
Depto. Comunicação e Marketing
Conselho Regional de Química IV Região
 
 
 
Agradecimentos
 
Mirian Tozzi, pelo depoimento e cessão do acervo sobre a visita de Marie Curie a Águas de Lindóia.
 
Prof. João Amilcar Salgado, do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, pelo depoimento e cessão de imagens da visita de Marie Curie ao Instituto do Rádio.
 
Museu Curie de Paris, pela cessão da foto de Marie Curie em visita ao Pão de Açúcar.
 
Florence Puech, Assessora de cooperação para a Ciência e Tecnologia do Consulado Geral da França no Rio de Janeiro, pelo apoio à pesquisa.
 
 
 
 
Sites consultados
 
 
Marie Curie – Her history in Brief - The Center for History of Physics.http://www.aip.org/history/curie/brief/04_honors/honors_3.html
 
A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas reflexões sobre a década de 1920 - Ildeu de Castro Moreira e Luisa Massarani http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702001000600004&script=sci_arttext
 
A divulgação científica no Rio de Janeiro: um passeio histórico e o contexto atual - Luisa Massarani e Ildeu de Castro Moreira - http://www.forumrio.uerj.br/documentos/revista_11/11-Massarani.pdf
 
La visite de Marie Curie à Rio de Janeiro en 1926 et la presse brésilienne - Bernardo Esteves, Luisa Massarani, Ildeu de Castro Moreira-http://www.sbhc.org.br/pdfs/revistas_anteriores/2007/2/artigos_2.pdf
 
A histórica visita de Marie Curie ao Instituto do Câncer de Belo Horizonte - Dr. Sandro Fenelon e Sidney de Souza Almeida - http://www.akisrx.com/htmtre/curie_brasil.htm
 
Uma exposição virtual sobre uma cientista extraordinária-http://www.museudavida.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=163&sid=24